quarta-feira, 28 de julho de 2010

QUEM ME DERA...



Quem me dera fosse um vendedor de sonhos: vendê-los-ia aos inexpressivos.
Quem me dera fosse uma torrente bravia: lavaria a toda esta circunferência conspurcada.
Quem me dera fosse um vendedor do meio-termo; pô-lo em balanças
Com o escopo do equilíbrio entre a ojeriza e o deleite.
Quem me dera...
Quem me dera fosse um noctâmbulo no percurso dos dias vetustos, dos dias corruptos,
Dos dias abruptos. Quem me dera fosse o início e o fim de algo qualquer,
Sendo as vísceras apenas um oco imaturo; ou feixes escuros e turvos.
Quem me dera fosse acalentado por espáduas femininas ao invés deste formato
Irregular que nos consome massificamente.
Quem me dera...
Quem me dera pudesse transformar toda esta concretidão visível, arrancar fora a fome esgarçada
Nas têmporas infantis; pintar, multicoloridamente, todo este ar teso-cineriforme.
Quem me dera...
Quem me dera fosse o progresso, rente a este retrocesso caudaloso,
Rente a este antagonismo superficial, rente a este vão-material.
Ah, deveras, quem me dera...
Anderson Costa



quinta-feira, 8 de julho de 2010

HOJE APRENDI UM POUCO


Hoje aprendi um pouco do bê-á-bá
Proveniente de uma vertical enseada
Na véspera do meu enterro,
Em naus: só fuligens!
Vi que as lembranças não me deixam
Melisma: apenas praxe!
E só o fato de desconhecer não enseja
A santidade, na base de algo que qualquer é.
De qualquer jazigo se apercebe a superioridade.
Um cheiro, um aroma sarcástico, vejo,
Sinto: evaporo!
E a noite se faz perfume feminino
Neste quarto em negrume, a voar estrumes,
Tombos e cotidianos: tudo fenecido!
Afundo-me na movediça mesa, alagada de mim,
E não acho solilóquios, apenas ladainhas recortadas
E anúncios comerciais.
Caem partes despedaçadas e se incrustam em sacos,
Em vácuos, em molduras de retratos.
Não vejo mais em espelhos toda a insanidade adjacente,
E ainda procuro o coaxar de intumescências:
Sinas nas paredes, marcas passadas, sujeira resvalada!
Uma ânsia de se jogar rente à clandestinidade das esquinas,
Prever todo o ardor: em quê?
Na avenida em pedregulhos, acampar sob todas
As bimbalhadas dadas às dezesseis horas.
Afaga-se o eriçado, ignomínias interpeladas,
Tragos de cigarros indecisos e mesmo assim
Ainda não sei o que fazer.
Anderson Costa

segunda-feira, 5 de julho de 2010

SÍNTESE



Na síntese em alguém escondo todos os desdobramentos
Do passado que me atormenta e faz vir à tona
Escumas em espinhos, ferindo-me,
Deteriorando o efêmero que há pouco regozijei.
Por isso, pergunto-me:
-não sei esconder minha indignação.
Como esconderei todo o meu ser em putrefação
Perante a estas milhares de vozes fantasmagóricas,
Sorrisos inexpressivos, cochichos, paradoxos de
Que ainda não necessito?
Pergunto-me e me sustenho sem alguma resposta,
Na exasperação do sentimentalismo sensacionalista presos
Aos meus calcanhares, sugando toda a sequidão
Que aflora em minha face, graças àquele homem que se diz
Homem, mas o vejo apenas como antanho,
No vazio sibilo da segregação.
E ainda há insistências brandas, vitórias, glórias,
Pessoas soberbas e tudo não passa de merda.
E tudo não passa de acomodação, fétidas bagagens
Em todo este quadradismo que canta refrões
De excrementos e deleita todas as improficuidades.
Anderson Costa

sábado, 3 de julho de 2010


VIAGEM

Transcorri o mar.
Durante todo o percurso não procurei
Achar o balanço do insano amor.
Transcorri o mar sem o propósito do amor,
Todavia com o escopo do não chegar,
Em circunscrições do desvestimento
E das ornadas noites que
Não se deixa dormir,
Sonhar amores.
A travessia pelo mar encantou
Demasiadas nostalgias
Sentadas nas cadeiras do Ferry-Boat.
E navegando fomos,
Em direção ao Cujupe,
E eu, talvez só eu,
Naveguei em outra direção,
Até sem direção,
Em ondas quietas dos ares
Que há tempo não sentia, se quer
Os teriam embotelhados para mim,
Neste meu ser que embotelhado já é.
Sobre o mar íamos.
E as ruas que conheço já se esqueciam
Em reciprocidade comutativa a
Remover toda a estrutura fincada, fixa,
Alavancando um melisma enjoativo
Nas vísceras de Junho.
E sobre o mar fomos,
Tentando encontrar intumescências
Nos Guarás.
E fomos sobre o mar.
Anderson Costa